Sunday, November 07, 2010

INVERSÃO DE MARCHA

Está quase tudo dito e redito acerca das consequências da entrada de Portugal no SME: Com uma moeda forte nas unhas, os portugueses consumiram o que produziram e o que pediram emprestado. Agora, como era inevitável, a festa acabou e há que mudar de vida.

Como?

O como é o nó que não sabemos desatar. Com moeda macaca a dificuldade nem tinha chegado a surgir: imprimiam-se notas (uma forma arcaica de dizer)  e a inflação ajustava as contas. Com moeda alemã andamos mais baralhados que uma mosca na teia. Ninguém gosta de ver o rendimento nominal reduzido, o hábito é vê-lo crescer. Até porque, sendo da natureza humana viver das expectativas, se elas são negativas os comportamentos retraem-se e a espiral de crescimento passa a rodar ao contrário.

Recentemente, têm aparecido algumas propostas para quebrar o ciclo vicioso em que nos deixámos enredar. Mas são mais ideias soltas que parte de uma teoria consistente capaz de se institucionalizar e inverter o sentido desta marcha que nos leva para a catástrofe.

Uma dessas propostas sugere a redução drástica da taxa social única compensada pelo aumento do IVA*, alargando a todos os bens e serviços transaccionados a taxa máxima da tabela actual. O resultado esperado seria um aumento de competitividade das empresas, nomeadamente daquelas que podem reequilibrar a nossa dependência do exterior, e a redução do consumo, nomeadamente dos bens e serviços importados.

É uma questão de contas? Não há universidade ou  instituto capaz de as fazer? E, já agora, de completar o exercício integrando-o numa estratégia que possa perdurar e não encalhar no primeiro senão com que a medida isolada possa deparar?

Porque, é óbvio, que um primeiro ajustamento não garante tranquilidade para sempre, independentemente das circunstâncias futuras. Esgotado este efeito, a que recurso se deita mão?

Sem uma estratégia orientadora da convivência de uma economia extremamente dual como a nossa com uma  moeda forte não teremos possibilidade de assegurar aquela convivência por muito mais tempo. Com ou sem FMI será o fim dela. Porque, mais do que financeiro, o que temos é um problema de competitividade, um grave rombo na parte frágil do nosso tecido económico.

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*(act.)
" ...e dos impostos sobre a propriedade."

1 comment:

Fábio said...

As circunstâncias vão obrigar a diminuir o nível de demagogia da política (estou a lembrar-me do indicador económico preferido do Eng. Guterres: a utilização da A2, para o Algarve, durante os fins-de-semana de ponte). Suponho que a moeda forte apenas pode ser contrariada com melhorias da produtividade/competitividade; e é preciso aumentar a rendibilidade do investimento em transaccionáveis e diminuir a dos não-transaccionáveis (as parcerias público-privadas mal negociadas - se é que podem ser alguma vez bem negociadas - melhoram a relação risco-rendimento dos investidores privados em não transaccionáveis o que diminui o interesse em investir em transaccionáveis).

O que é sobre-maneira penalizante é observar que o nosso "fim de festa" acontece numa conjuntura particularmente difícil. Até a Inglaterra está a ser altamente contraccionista, o que é um puro disparate segundo um artigo recente de Bradford Delong.