Wednesday, March 31, 2010


Martin Wolf volta hoje ao tema da insustentabilidade do modelo alemão para a eurozona. A ideia é simples: A Alemanha exporta demais e consome de menos, precisamente o contrário do que fazem outros países, nomeadamente a Grécia e Portugal. Como os desequilíbrios comerciais entre os membros da eurozona provocam crescimentos insustentáveis da dívida dos deficitários o modelo alemão não é suportável pela eurozona. A perspectiva de Martin Wolf é também a de muitos outros analistas, que se situam geralmente fora da eurozona.
Em última análise trata-se de uma tese que conclui pela inviabilidade da moeda única, ou pelo menos pela sua inviabilidade dentro de um espaço económico heterogéneo não integrado politicamente. A partir daqui o corolário é óbvio: ou o euro se extingue, ou a eurozona se reduz ou a União Europeia avança para a integração política.
Na primeira e segunda hipóteses, o futuro da União Europeia estaria irremediavelmente comprometido. O euro, com todos os custos (mas também as vantagens, geralmente desvalorizadas em situações de crise) é reconhecidamente o cimento da construção europeia. Sem moeda única a UE desmoronar-se-ia, mais cedo ou mais tarde, com os embates de desvalorizações monetárias competitivas entre os seus membros. A terceira hipótese será ainda durante muitos anos uma miragem.
A hipótese mais provável é aquela que se encaminhe para a integração contratualizada: uma integração não assumida mas que garanta a unidade europeia sustentada em ajudas aos países em dificuldades mediante compromissos controlados. Se esses compromissos forem rejeitados pelas populações dos países ajudados, nomeadamente por convulsões sociais imparáveis, a integração não progredirá e a União Europeia ou se desintegra ou se contrai.
Quando ainda há bem pouco tempo o alargamento ou não à Turquia era tema dominante, é muito sintomático da era da incerteza em que vivemos a mudança brusca das preocupações centrais da Europa. Preocupações que, contudo, chegam ao cidadão comum de forma difusa porque não lhe explicam claramente as vantagens e os custos da cidadania europeia. E que alguns desses custos implicam alguma imitação dos hábitos alemães que estão na base da prosperidade que atingiram. A pontualidade, a exigência, a honestidade, por exemplo.
A tese de Martin Wolf parece-me, portanto, redutora: Porque vê nas imposições alemãs uma obstinação inexequível sem admitir que a construção europeia só pode fazer-se através de negociações permanentes entre os seus membros mas que, incontornavelmente, há membros que são mais membros que outros enquanto não forem mais semelhantes.


Why Germany cannot be a model for the eurozone
By Martin Wolf

“The effort to bind states together may lead, instead, to a huge increase in frictions among them. If so, the event would meet the classical definition of tragedy: hubris (arrogance); Ate (folly); nemesis (destruction).” Thus, in December 1991, did I conclude an article on the rush to monetary union. I am aware of the commitment of Europe’s elite to the success of the European project. But the crisis is profound – for the eurozone, the European Union and the world. As Wolfgang Münchau has
pointed out, last week’s European Council was not a solution but a fudge.
The immediate challenge is
Greece. On this, the heads of government decided that “as part of a package involving substantial International Monetary Fund financing and a majority of European financing, euro area member states are ready to contribute to co-ordinated bilateral loans”. But, it continued: “Any disbursement ... would be decided by the euro member states by unanimity subject to strong conditionality and based on an assessment by the European Commission and the European Central Bank ... The objective of this mechanism will not be to provide financing at average euro area interest rates, but to set incentives to return to market financing as soon as possible.”
Germany, the most powerful eurozone member, got its way. But the outcome was unpopular elsewhere, not least in France, and with the ECB, which does not want the Fund to intervene in monetary policy. Nicolas Sarkozy, the French president, must look with horror on intervention by a Washington-based institution headed by Dominique Strauss-Kahn, a heavyweight potential rival for his job.
Yet it would be quite wrong to conclude that this is a big victory for the
IMF or even for Germany. The outcome looks unworkable.
First, would this be an IMF or an EU programme? What happens if the IMF disagrees with the Commission? Such disagreement seems likely. The fiscal tightening agreed by Greece, of 10 per cent of gross domestic product over three years, looks impossible, given the absence of monetary policy or exchange rate flexibility. Maybe no programme would succeed given the unfavourable initial conditions.
Second, what are the chances that the eurozone would act unanimously in support of an IMF programme?
Finally, why should the envisaged “help” help? Greece’s immediate problem is the high interest rates it is paying. To offer liquidity at a penal rate, when Greece has no access to the market, would worsen its solvency problem. Moreover, by the time this assistance were offered, it would be far too late.
So far, so bad. It is when one looks at the big challenges that things look truly frightening. One worry is the unwillingness to accept default. More important, Germany’s views on how the eurozone should work are wrong.
Herman Van Rompuy, president of the European Council,
stated after the meeting that “we hope it will reassure all the holders of Greek bonds that the eurozone will never let Greece fail”. Only two ways of meeting this commitment exist: either members write blank cheques in favour of one another or they take over the public finances – and so the government – of errant members. Germany would never permit the former; but politics would never permit the latter, particularly in the big countries. Thus, Mr Van Rompuy’s statement looks absurd.
Now turn to the bigger point. Last week’s statement also argued that “the current situation demonstrates the need to strengthen and complement the existing framework to ensure fiscal sustainability in the eurozone and enhance its capacity to act in times of crises. For the future, surveillance of economic and budgetary risks, and the instruments for their prevention, including the excessive deficit procedure, must be strengthened.”
The ruling idea here is that the weakening of fiscal positions in peripheral countries reflects a lack of fiscal discipline. That is true of Greece and, to a lesser extent, Portugal. But Ireland and Spain had what seemed to be rock-solid fiscal positions. Their weakness lay in private sector financial deficits. It was only when the private sector corrected after the crisis that the fiscal deficit exploded. Since the problem was in the private, not the public sector, monitoring must also focus on the private not just the public sector.
Yet the asset bubbles and private sector credit expansions in the periphery were also the mirror image of the absence of growth in real demand in the core. This was how the ECB’s monetary policy produced a more or less adequate rate of expansion of overall eurozone demand. So, as soon as we ask what was the underlying cause of the fiscal catastrophes of today, we must realise that they were ultimately the result of reliance on an accommodative monetary policy, employed to offset the feeble growth of demand in the eurozone’s core and, above all, in Germany.
Such a discussion of internal eurozone demand and imbalances is not one German policymakers wish to have. So long as that is the case, the prospect for the “improved economic co-ordination” mentioned in the Council statement is nil. Worse, Germany does wish to see a sharp move by its partners towards smaller fiscal deficits. The eurozone, the world’s second largest economy, would then be on its way to being a big Germany, with chronically weak internal demand. Germany and other similar economies might find a way out through increased exports to emerging countries. For its structurally weaker partners – especially those burdened by uncompetitive costs – the result would be years of stagnation, at best. Is this to be the vaunted “stability”?
The project of monetary union confronts a huge challenge. It has no easy way of resolving the Greek crisis. But the bigger issue is that the eurozone will not work as Germany wishes. As I have argued previously, the eurozone can become Germanic only by exporting huge excess supply or pushing large parts of the eurozone economy into prolonged slump, or, more likely, both. Germany could be Germany because others were not. If the eurozone itself became Germany, I cannot see how it would work.
Evidently, Germany can get its way in the short run, but it cannot make the eurozone succeed in the way it desires. Huge fiscal deficits are a symptom of the crisis, not a cause. Is there a satisfactory way out of the dilemma? Not so far as I can see. That is really frightening.

Tuesday, March 30, 2010


É sabido que os submarinos imergem e emergem.
O caso dos submarinos andava há muito tempo imerso. Emergiu agora na Alemanha.
Na Alemanha, segundo consta, a Justiça é mais célere e eficiente que em Portugal.
Mas será tão isenta que penalize os seus sabendo que continuam intocados os outros?
Se o for, valha-nos Santa Alemanha neste e noutros casos.
As autoridades alemãs fizeram já uma prisão num caso que envolve alegados subornos relacionados com a construção de dois submarinos para a Marinha portuguesa.
O consórcio industrial alemão Ferrostal, ao qual Portugal encomendou dois submarinos em Abril de 2004, terá conseguido o contrato de venda no valor de 880 milhões de euros através de subornos e de negócios de consultoria falsos.
A notícia, avançada hoje pela revista alemã Der Spiegel, cita fontes da investigação. Um membro da administração da empresa já foi detido e há mais uma dúzia de suspeitos.
Segundo o relatório da investigação, um cônsul honorário português contactou um elemento da administração da Ferrostal dizendo-lhe que podia desbloquear a seu favor o contrato dos dois submarinos portugueses.
Audiência com Barroso
O mesmo diplomata terá conseguido marcar uma reunião, no Verão de 2002, com o recém-empossado Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Por este motivo, acabaria por ser contratado como consultor, em Janeiro de 2003, recebendo 1,6 milhões de euros, aparentemente incompatíveis com a actividade diplomática.
Para além disso, a Ferrostal pagou mais um milhão de euros pelo envolvimento no negócio de um contra-almirante português (não nomeado pela revista alemã). Há ainda uma firma de advogados portuguesa que terá feito lóbi para que o contrato dos submarinos viesse a ser atribuído à Ferrostal.
O caso dos submarinos tem sido investigado pelas autoridades portuguesas, mas fundamentalmente por suspeitas de alegadas irregularidades nacionais. As revelações do Der Spiegel fazem nova luz sobre este complexo caso.


Ontem defendi aqui que a tarimba política não é um inconveniente mas uma vantagem daqueles que se iniciaram cedo nas lides partidárias e nunca fizeram outra coisa na vida. E que se a qualidade daqueles que nos representam na Assembleia da República ou governam o Estado não é aquela que desejaríamos isso deve-se não à exclusividade do exercício político mas à forma como os elegemos. Por outro lado, a experiência de gestão empresarial em cargos políticos serve geralmente melhor os interesses das empresas que os do Estado.
O Jornal da Madeira Online publica hoje um artigo reportando um outro da Sábado intitulado "As ligações perigosas de Passos Coelho". Nunca li qualquer destas publicações mas estas notícias correm nos dias de hoje à velocidade da luz, e não vou comentar o seu conteúdo. A citação serve apenas para exemplificar um entre muitos casos em que as interligações pessoais entre o Estado e as empresas deriva, frequentemente, para situações suspeitosas, infundadas umas, outras bem longe disso.
No caso em concreto, a experiência empresarial de Passos Coelho parece, pelo menos aparentemente, poder vir a ser mais criticada que apreciada.
A este propósito refira-se ainda que o Presidente do Observatório da Justiça, segundo notícia de hoje do Jornal de Negócios Online, propõe-se apresentar proposta de lei que determine um período de nojo de dois anos entre a saída de um cargo político e a entrada em funções empresariais. Mas não prevê, não se percebe bem porquê, a situação inversa.
Que fará o político naquela fase metamorfósica de transição? Um curso de reconversão profissional?

Monday, March 29, 2010


Ouve-se frequentemente,
"Veio da Jota, nunca fez mais nada na vida, não tem uma ideia para o País. Precisávamos de alguém que tivesse passado por uma empresa, que soubesse gerir"
Se reconhecemos que a experiência numa carreira é fundamental ao seu bom desempenho ao mais alto nível porque razão pensa muita gente o contrário relativamente à carreira política?
Por analogia enviesada: compara-se o político que desagrada com o empresário bem sucedido, concluindo-se que aquele empresário deveria ser o político que se precisa.
A realidade, contudo, mostra o contrário: São raros os empresários que se tornaram políticos e ainda mais raros os que foram bem sucedidos na política.
Os políticos que mais páginas escreveram na história nunca fizeram de muito relevante na vida fora da actividade política.
Qualquer candidato a uma posição política de relevo pode fracassar estrondosamente mas, se isso ocorrer, não será, certamente, por excesso de experiência política.
É inegável, no entanto, que os políticos que elegemos não mostram geralmente as qualidades que, imaginamos, deveriam possuir. Essa não sintonia decorre, fundamentalmente, de uma outra razão: a de entre o eleitorado e os eleitores se interpor a cortina partidária translúcida e não transparente. Que só será ultrapassada, pelo menos em grande parte, quando as listas submetidas a voto forem nominais, por círculos eleitorais, e os eleitores tiverem a possibilidade de rejeitar candidatos.
Quanto à famigerada ideia para o País, têm muitas os que não sabem ou não ousam tentar realizá-las.

Sunday, March 28, 2010


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Papa diz que não se intimida com os "murmúrios da opinião dominante"
E com os traumas irreparáveis dos abusados?


A Mexilhoeira Grande é um pequeno aglomerado populacional próximo de Portimão, que a avalanche turística, que arrasou grande parte do carácter algarvio, também atingiu. Terá cerca de 4000 residentes, durante o Verão não é de espantar que duplique. Em todo o caso é uma pequena localidade onde alguns turistas se albergam à noite depois do dia nas praias próximas e parte das noites nos bares em Portimão e arredores. Pacata, portanto.
Por razões que um turista acidental não sabe, alguém decidiu colocar um painel publicitário digital mesmo junto à Igreja e ao cemitério. Disseram-nos que está geralmente avariado, terá funcionado até hoje, por junto uns quinze dias. Quem mandou colocar aquele avantesma ali?
O presidente da junta de freguesia? Os presidentes das juntas de freguesia, sem boas razões para continuarem a existir, entretêm-se frequentemente a gastar o dinheiro dos contribuintes para contentamento de gostos próprios, geralmente duvidosos, ou aliciar os eleitores com obras ou actividades manhosas.
Não sei quem pagou o aborto. Mas sei que, mesmo que não tenha sido chamado a contribuir involuntariamente, a coisa deveria ser retirada. Aquela e outras coisas semelhantes por esse Portugal bisonho fora.


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A primeira vez que fomos ao Algarve desembarcámos na Praia da Dona Ana e ficámos deslumbrados.
Quando, muitos anos depois, lá voltámos, a Dona Ana estava irreconhecível, e ficámos revoltados.
Infelizmente o crime ali cometido replica-se em muitos outros locais da falésia algarvia.
Agora, o tempo e as intempéries encarregaram-se de ditar a sentença: a falésia está ameaçada de derrube e o mostrengo que lhe colocaram às costas corre o risco de ficar sem apoio.
A Praia da Dona Ana da minha juventude tinha sido brutalmente ferida. Ontem encontrei-a moribunda.
A quem aproveitou o crime?

Saturday, March 27, 2010


Direcção-Geral do Turismo
Solicita-se a vossa atenção para o seguinte:
A um casal ofereceram como prenda de anos uma noite e pequeno almoço. A oferta foi feita sob a forma de um vale emitido por A vida é bela, que depreendemos ser uma empresa especializada na oferta de serviços prestados por outros. Neste caso, o serviço em questão passou ainda pela reserva de um quarto num dos estabelecimentos associados a uma outra organização de reservas, a Solares de Portugal - Turismo de Habitação em Portugal. A reserva foi feita para uma casa na Mexilhoeira Grande, próximo de Portimão. Quem ofereceu o brinde pagou o preço imediatamente à "A Vida é bela", a utilização foi realizada muitos meses depois.
O casal a quem a oferta foi feita convidou por sua vez um outro casal para ir com eles até ao Algarve. Para tanto tornava-se necessário que este outro casal obtivesse uma reserva para a mesma casa, que nenhum deles conhecia. Preço 80 euros. Com uma condição: A reserva deveria ser imediatamente paga por transferência bancária. Estranhou-se a exigência e sugeriu-se a indicação do número de cartão de crédito como garantia, prática usual nestas circunstâncias nos dias de hoje. A proposta foi recusada. Numa situação diferente ter-se-ia procurado outra alternativa. Havendo já uma reserva, a do brinde, insistiu-se na utilização do cartão como garantia. Da empresa de reservas responderam que, nesse caso, debitariam imediatamente o cartão. A divergência suscitou uma discussão desagradável tendo terminado com a aceitação da empresa de reservas em não debitar o serviço antes dele ser realizado e o pagamento ser feito directamente ao dono do quarto alugado.
Foi só quando chegaram a Mexilhoeira Grande que os clientes constataram que a casa não justificava de modo algum aquele preço . Aliás, o dono da casa admitiu que mesmo na época alta (Agosto, concretizou) a Solares de Portugal lhe impunha promoções a 55 euros.
Ficaram muito claras, portanto, as razões das ânsias da empresa de reservas na cobrança muito antecipada de um valor escandalosamente desproporcionado para as características da casa. Na Pousada de Sagres, uma unidade turística de elevada qualidade, na mesma noite o preço pedido era de 91 euros.
Se Portugal tem de contar com o turismo como uma actividade fundamental da sua sustentabilidade económica, ou estas situações e outras idênticas são travadas por quem de direito ou a clientela desertará mais tarde ou mais cedo por falta de fiabilidade do fornecedor.


Há cada vez mais gente a colocar em causa a coabitação das economias mais frágeis no SME.
A participação do FMI na resolução do problema da Grécia é vista por Daniel Bessa, na sua coluna no Expresso Economia de hoje, como o "golpe de misericórdia" que irá convencer os gregos a abandonar o euro. Bessa não o diz mas não é difícil perceber que onde está Grécia poderá ler-se Portugal, logo a seguir.
A hipótese Bessa decorre do facto de, não podendo o FMI receitar a desvalorização da moeda, as alternativas serão de tal modo dolorosas que o paciente não as vai poder suportar. E talvez tenha razão. Já é muito menos líquido, contudo, que a saída do euro resolva consistentemente o problema da falta de competitividade dos que se vêm gregos nos tempos que correm. Depois de uma lufada de ar a situação voltará ao ponto de partida. Mas, reconheça-se, que para acalmar as convulsões sociais supervenientes a um política de rigorosa austeridade o euro é o bode expiatório mais óbvio.
Só vejo uma alternativa para a desmobilização deste confronto anunciado: Colocar ao País, através de um referendo, a possibilidade de escolher entre a manutenção no euro sujeitando-se às medidas do catálogo ou voltar à moeda nacional com as consequências fácilmente previsíveis.
Quanto mais tarde tal acontecer maior será a probabilidade de vingar a segunda hipótese.
Mas escapa-me a forma prática de a accionar sem consequências que a colocam irremediavelmente em causa à partida.


(...) The reluctance to describe Shakespeare as a collaborative writer is puzzling – especially because scholars know that co-authorship was common on the Elizabethan stage. Christopher Marlowe collaborated. So did Ben Jonson and John Marston. When the co-authored plays of John Fletcher and Francis Beaumont were published in an expensive folio in 1647 their collaborative nature was a selling point. And when The Two Noble Kinsmen was first printed, in 1634, the title page made much of the fact that it was “written by the memorable worthies of their time, Mr John Fletcher and Mr William Shakespeare.”

In 1985 I was hired by Columbia to teach Shakespeare. At this time I was still unaware that three plays on my syllabus – Titus Andronicus, Timon of Athens and Pericles – had been co-authored. Like most Shakespeareans, I paid little attention to the largely forgotten attribution studies of the 19th century. Serious work in that field had all but died out after the greatest Shakespeare scholar of the early 20th century, Sir EK Chambers, had, in a famous 1924 British Academy Shakespeare lecture, roundly dismissed the enterprise as the work of “disintegrators”. In fact, until the past decade, the leading authorities on these matters agreed with Chambers and rejected the possibility that Shakespeare collaborated in any significant way.

Since then, thanks to the cumulative labour of scholars who began to investigate authorial habits – which playwright consistently preferred “has” and “does” and which “hath” and “doth” and so on – writers’ distinctive syntax, vocabulary and stylistic tics have become more visible. (...)


Cravinho: “Falta vontade política para combater a corrupção”
O ex-ministro socialista João Cravinho reafirmou ontem à noite que “falta vontade política, e o que é mais importante, determinação e coragem” para combater a corrupção.
Falta de vontade política para combater a corrupção : eufemismo para dizer que falta vergonha àqueles que deveriam combater a corrupção porque se aproveitam dela.

Friday, March 26, 2010


Vaticano defende decisão de não sancionar padre que abusou de 200 crianças
Que crime sacerdotal será, para o Vaticano, suficientemente horroroso para ser condenado?
A defesa do Vaticano neste, e em outros processos idênticos, ultrapassa o mais refinado comportamento corporativo que se possa imaginar: o de em nome do prestígio da Ordem absolver o Bastonário qualquer dos seus membros de quaisquer actos por ele praticados por mais hediondos que eles sejam.


A continuada confirmação de uma desilusão.

Thursday, March 25, 2010


Simplesmente, inacreditável? Em Portugal, não.
Justiça Ricardo Sá Fernandes condenado a pagar indemnização de dez mil euros
O advogado Ricardo Sá Fernandes foi hoje condenado pelo Tribunal de Braga a pagar dez mil euros de indemnização ao empresário Domingos Névoa por difamação agravada, ficando obrigado a pagar ainda uma multa de 3000 euros. Em causa estão declarações feitas pelo advogado ao semanário "Sol" em janeiro de 2007, apelidando o empresário de "corruptor e vigarista".
Hoje, o tribunal condenou Ricardo Sá Fernandes a pagar uma indemnização por danos morais ao empresário, montante que representa o dobro da multa de cinco mil euros paga por Domingos Névoa. Há cerca de um ano, recorde-se, Domingos Névoa foi condenado a pagar uma multa de cinco mil euros por tentativa de corrupção do vereador lisboeta José Sá Fernandes
Então, o coletivo de juízes considerou provada a prática de corrupção ativa para ato lícito, considerando que Domingos Névoa pretendia que José Sá Fernandes desistisse da ação popular que tinha interposto contra o negócio da permuta dos terrenos do Parque Mayer, propriedade da Bragaparques, pelos da Feira Popular, propriedade da autarquia lisboeta.


A União Europeia não é uma construção fácil e está ainda bem longe de acabada.
De vez em quando ameaça retroceder.
Hoje, Alemanha e França concordaram nas acções de ajuda à Grécia, quando e se elas se tornarem necessárias. Uma decisão que interessa a Portugal.
Por cá, o PEC passou com a abstenção do PSD.
Para já, algumas nuvens negras que pairavam sobre a Europa parecem em vias de dissipação.
O euro continuou a cair e está a valer neste momento 1,329 dólares. É mau? Deve ser bom para quem se queixa por ter de lidar com uma moeda forte.

O Parlamento Europeu deu luz verde á nomeação de Vítor Constâncio como Vice-Presidente do BCE. Deixa por esclarecer os casos BPN, BPP e BCP.




É notícia de primeira página do New York Times de hoje: O Cardeal Ratzinger, actual Papa Bento XVI é suspeito de ter encoberto um caso de pedofilia praticado por um padre norte-americano que envolveu 200 rapazes surdos-mudos.
Com que olhos se pode olhar a partir de agora este Papa cúmplice de um crime inqualificável, crime que, pelo facto de não ter sido julgado nem condenado, não desmotivou a continuação da repetição de muitos outros casos no seio da Igreja? Se a benevolência divina é infinita que moral se aloja na consciência de quem a préga? Se a Justiça é ludibriada pela cumplicidade e pelo encobrimento que réstea de força moral continua a assistir a quem a trai?
Warned About Abuse, Vatican Failed to Defrock Priest
Top Vatican officials, including the future Pope Benedict XVI, did not defrock an American priest who molested as many as 200 deaf boys, even after warnings from several bishops, church files show.

Wednesday, March 24, 2010


Ainda há bem pouco tempo, gente preocupada com a dignidade nacional insurgia-se contra as agências de rating, argumentando que lhes faltava idoneidade para avaliar fosse o que fosse e muito menos as dívidas soberanas. Afinal tinham sido essas mesmas agências que haviam classificado como altamente reputáveis fundos de investimentos que viriam a mostrar-se, com o despoletar da crise, largamente contaminados com produtos financeiros tóxicos.
A indignação tinha fundamento mas não tinha o mínimo suporte que a fizesse vingar. Apesar da crise, o sistema continuou na mesma sem necessidade sequer de mudar alguma coisa. E as agências de rating permaneceram imperturbadas a classificar.
Soube-se hoje que a Fitch reduziu o rating da República Portuguesa de "AA" para "AA-" o que, não sendo uma vergonha nacional, vai aumentar o custo da dívida, que já absorve cerca de 1% do PIB.
É neste contexto que amanhã será submetido à Assembleia da República um projecto de resolução do PS , sobre o PEC.
O PEC, uma coisa desagradável, tem sido atacado em muitas frentes e sabe-se que suscita também as maiores reservas a muitos membros do partido do governo. Mas sem um apoio claro de uma maioria parlamentar, o PEC será um referencial desvalorizado, que prejudicará a já deteriorada credibilidade da República Portuguesa, e logo no ano do seu centenário.
O comunicado da Fitch de hoje, para além das consequências desagradáveis, nomeadamente sobre os juros da dívida, pode ter, no entanto, uma virtude: forçar os políticos portugueses a uma trégua na guerrilha partidária e ao consenso à volta de um instrumento vital para a credibilidade externa da centenária. Mais do que quaisquer discursos de circunstância, é desse consenso que a República precisa.
Sem ele, alguns partidos poderão angariar mais alguns votos, mas os juros que esses votos custam serão pagos por todos os portugueses. E, mais uma vez, ficará provado que Portugal, nas actuais circunstâncias, precisa de um governo maioritário pluripartidário formado no âmbito do actual quadro parlamentar.
Títulos correlacionados:

Tuesday, March 23, 2010


quem ainda acredite que os alemães acabarão por reconhecer que o euro é um bom negócio para eles e que se o querem manter terão de pagar por isso. Dito de outro modo, a Alemanha tem todo o interesse em resgatar a Grécia se não perde o negócio.

A Alemanha, por seu lado, sabendo que para além da Grécia há, e haverá no futuro se tudo se mantiver como dantes, outros aflitos, não abre mão das garantias que entende necessárias para acabar com o peditório. E faz finca-pé na sua posição sabendo que, qualquer que ela seja, a solução do problema passará sempre pelos alemães. O artigo do Financial Times de hoje que trancrevi aqui confirma a irredutibilidade germânica no sentido de coagir os países do Sul a adoptarem os critérios de exigência, disciplina e trabalho com que construiram a sua prosperidade os povos do Norte.

Seria ingenuidade pensar que a posição da Alemanha se dirige unicamente à Grécia. Se fosse esse o caso, provavelmente a sua intransigência já teria sido ultrapassada.
Ao pretender impor à Grécia condições que garantam a não repetição da mesma cena, a Alemanha pretende sobretudo evitar que ela se volta a repetir em outros palcos.

É a este propósito que se coloca a questão nuclear da relação futura entre os membros da UE e do SME: o do compromisso institucional acerca dos limites do endividamento público que obrigará à tomada de medidas reformadoras - ou reformas estruturais - que, sem esse compromisso, serão tendencialmente sempre adiadas sine die.

A Alemanha sabe, por exemplo, como toda a gente sabe, que o funcionamento regular da justiça é condição necessária à atracção do investimento, motor fundamental do crescimento económico. E sabe, como todos sabemos, que a justiça não é modelar entre os países do Sul.
Mas a Alemanha também sabe que, por exemplo, a produtividade dos serviços públicos no Sul da Europa é geralmente estropiada por falhas de controlo e exigência flagrantes.
Sabe, no entanto, a Alemanha que uma dieta financeira forçada é a forma mais conveniente para eliminar gorduras e promover reformas. Não há dinheiro, não há vícios.
Há quem afirme que as crises não se debelam com reformas estruturais. Os alemães, pelos vistos, não pensam assim. E não parece que estejam dispostos a mudar de opinião perante argumentos contrários por mais ilustres que pareçam.
É muito sintomático que o PEC, que não agrada a ninguém internamente, tenha sido tão bem acolhido externamente (FMI, OCDE, UE). A razão é simples: Reduzam o défice e a dívida. Quanto ao como, entendam-se entre vós!


Germany has set out three fundamental preconditions for any rescue package for Greece, including involvement of the International Monetary Fund, and a commitment by its European Union partners to tough new rules to control public debt and deficits in the eurozone – including necessary EU treaty changes.
A senior government official in Berlin said there would be no agreement at this week’s EU summit on a specific rescue package for the debt-strapped Greek government.
If there were to be agreement on a “mechanism” to provide such assistance, he said, it could only be triggered once Greece had exhausted its capacity to raise money on the international capital markets; the IMF had agreed to make a “substantial contribution” to a rescue package; and the EU members has agreed to negotiate new rules to prevent any reoccurrence of such a debt crisis.
The German position was revealed in response to growing pressure from the European Commission, and other EU member states, to reach agreement on the mechanics of a rescue package for Greece at the European Council meeting on Thursday and Friday.
an interview with the FT on Monday, José Manuel Barroso, Commission president, said rapid agreement was needed to reassure financial markets, and ensure the stability of the euro. He expressed confidence that Angela Merkel, the German chancellor, would back a deal as a “committed European”.
The German response is that the government in Berlin is “negotiating in the European interest, and demonstrating our commitment to Europe in defending the stability of the euro”, the official said.
A negotiation (on help for Greece) should only come as a “last resort”, he said, and only happen subject to the three conditions.
The German demand that could meet the most resistance from its EU partners is the insistence that new rules to enforce budget discipline should be negotiated, even if that requires treaty changes. Both France and the UK are passionately opposed to any such suggestion of reopening treaty negotiations.
“We must draw the consequences for the future, with the goal of agreeing more effective sanctions and prevention measures against excessive indebtedness, [even if] that should include a treaty change,” the senior official said, speaking on condition of anonymity.
Involvement of the IMF in a Greek rescue package is a much more open debate inside the union, with Mr Barroso himself expressing no objection, provided that any Greek rescue is led by Europe. There have been clear divisions within Germany on the question, but advisers to Ms Merkel seem to have won the day in a fierce debate with Wolfgang Schäuble, finance minister, and his staff, who opposed bringing in the fund.
Although Germany has appeared increasingly isolated in the EU in holding out against any formal rescue package for Greece, there seems no prospect of any deal being agreed without Berlin’s agreement.
It might still be possible to agree a first step of a deal this week – setting out the conditions under which an emergency rescue would be launched – but without any direct connection to the Greek crisis, and only if it does not imply that any rescue would be automatic, according to the German view.

Monday, March 22, 2010


É bem provável que se Helmut Kohl fosse o actual Chanceler da Alemanha, a história da Europa teria um percurso diferente daquele para onde a quer levar a Chanceler Merkel. Esta é opinião de Wolfgang Münchau expressa no artigo do Financial Times de hoje que transcrevi aqui, e do qual destaco:
"Ms Merkel is not a politician driven by a strong historical destiny, unlike Helmut Kohl, her predecessor but one as chancellor. However real the constitutional problems may be, I suspect Mr Kohl would never have hidden behind a technical or legal argument on such a crucial issue."
Mas poderia ser muito diferente?
A intransigência da Alemanha em aderir ao resgate dos países europeus em dificuldade, a começar pela Grécia, do qual ela seria sempre a principal contribuidora, parece começar a sobrepor-se nos media e nos orgãos europeus às causas que levaram esses países às condições problemáticas em que se encontram. E, no entanto, mesmo que a Alemanha com Kohl fosse mais pródiga e solidária, as causas dos problemas estruturais dos outros não seriam, só por isso, ultrapassadas.
A coabitação na União Europeia e, principalmente, no seio do SME impõe a descoberta de formas de convivência que têm de ser encontradas pelos colectivos dos seus membros mas também por cada um deles individualmente e, muito particularmente, daqueles que se encontram mais desfasados do pelotão mais avançado.
Mas isso implicaria uma forma diferente de relacionamento interno entre os agentes políticos e os parceiros sociais. Um relacionamento que está bem longe da guerra de guerrilha a que assistimos em Portugal esquecendo os seus protagonistas aquilo que é imprescindível e urgente fazer: um compromisso histórico, que terá de ir muito para muito para além do PEC, acerca daquilo que a coabitação na UE e o uso de uma moeda implicam.
A discussão em curso acerca do PEC, que deveria constituir um ensaio para a construção desse compromisso, está a ser, lamentavelmente, inquinada pelo jogo dos interesses individuais, que são muitos, sem que apareça alguém a tocar a reunir, como se impunha.


Gaps in the eurozone ‘football league’
By Wolfgang Münchau

At last we are heading towards a resolution, albeit a bad one. After weeks of pledges of political and financial support,
Angela Merkel appears ready to send Greece crawling to the International Monetary Fund.
Germany cites legal reasons for its position. In past rulings, its constitutional court has interpreted the stability clauses in European law in the strictest possible sense. These rulings have left a deep impression among government officials. It is hard to say whether this argument is for real or is just an excuse not to sanction a bail-out that would be politically unpopular. It is probably a combination of the two.
I have heard suggestions that a deal may still be possible at this week’s European summit, but only if everybody were to agree to Germany’s gruesome agenda to reform the stability pact. That would have to include stricter rules and the dreaded exit clause, under which a country could be forced to leave the eurozone against its will. I am not holding my breath.
But either outcome will mark the beginning of the end of Europe’s economic and monetary union as we know it. This is the true historical significance of Ms Merkel’s decision.
Greece faces the most acute difficulties, it is not the only member in trouble. There are at least four – Greece, Spain, Portugal and Ireland – that are probably not in a position to maintain a monetary union with Germany under current policies indefinitely. There may be several more, where the problems are not yet quite so evident. In the presence of extreme current account imbalances and a lack of bail-out or fiscal redistribution mechanisms, a monetary union among such a diverse group of countries is probably not sustainable.
In a column several weeks ago I put forward
three conditions necessary for the eurozone to survive in the long run: a crisis resolution mechanism, a procedure to deal with internal imbalances, and a common banking supervisor. Since then, things have been moving in the wrong direction on all three counts.
For a start, we have come from a situation in which the “no bail-out” clause of the Maastricht treaty, having been almost universally disbelieved for 10 years, is suddenly 100 per cent credible. The minute the IMF marches into Greece, all ambiguity will end.
The debate on imbalances is also regressing. It would be unreasonable to ask Germany to raise wages or cut exports, but there is a legitimate complaint about Germany’s lack of domestic demand. Berlin should accept it needs to develop a strategy. But the opposite is happening. Rainer Brüderle, economics minister, said last week there was nothing the government could do about demand because consumption was a decision by private individuals. A senior Bundesbank official even compared the eurozone to a football league, in which Germany proudly held the number one slot. The long-term direction of fiscal policy is even more alarming, as the gap between Germany and the others will widen.
On banking supervision, the main reason for a common European system is macroeconomic. In a monetary union, imbalances would matter a lot less if the banking system were truly anchored at the level of the union, not the member state. As banks can obtain liquidity from the European Central Bank, even extreme and persistent current account deficits should not matter in good times. But they matter in times of crisis. For as long as bank failures remain a national liability, persistent imbalances could ultimately lead to a national insolvency. If the banking sector were genuinely European, imbalances would still be an important metric of relative competitiveness but we would need to worry a lot less, just as we do not worry about the current account deficit of a city relative to its state.
The lack of a bail-out system, of an agenda to reduce imbalances and of a common banking system are realities that investors should take into account when making long-term decisions, as should policy-makers when they make important choices for citizens. The reality is that the eurozone, as it works today, is not a monetary union but a souped-up fixed exchange rate system.
In the past, global investors have placed a lot of trust in European politicians. They believed Peer Steinbrück, the former German finance minister, in February 2009 when he ended a speculative attack on Ireland, Greece and others with a simple statement of support. They also believed, as I did myself, that political leaders would ultimately do the right thing to save the system, having first explored all the alternatives. As I follow the political debate in Berlin, I am no longer certain that is the case.
Ms Merkel is not a politician driven by a strong historical destiny, unlike Helmut Kohl, her predecessor but one as chancellor. However real the constitutional problems may be, I suspect Mr Kohl would never have hidden behind a technical or legal argument on such a crucial issue.
Europe’s current generation of leaders lacks this accident-avoiding instinct. So when Ms Merkel and her colleagues in the European Council see the iceberg coming, they will tend to rush not to the helm but to the nearest constitutional judge.
I am not predicting a catastrophe. I am merely pointing out that the present policy choices are inconsistent with the survival of the eurozone in its current form.


«Yes, we did»
After a historic House vote, President Obama finally can use those words.

Sunday, March 21, 2010


José Sócrates: PEC deve ser assumido “pelo país”.
Mas parece que não vai ser. O que, evidentemente, não serve os interesses do País porque debilita a capacidade da sua execução aos olhos dos observadores que, de um modo ou de outro, avaliam o risco da dívida e reclamam o juro.
Dos candidatos à liderança do maior partido da oposição nenhum se dispõe sequer a votar o PEC argumentando que esse voto não é constitucionalmente necessário. E não é. Mas sem ele o PEC não é a mesma coisa.
Repetidamente, tenho anotado neste caderno que Portugal não pode ser governado, nas condições em que se encontra, por um governo minoritário por mais hábil e capaz que seja quem lidera esse governo. Nenhum partido da oposição se disporá a assumir encargos sem retirar dividendos. Os interesses dos partidos sobrepõem-se aos do País por muito que todos eles digam o contrário. No caso do PEC, um compromisso que envolve muitos dissabores para toda a gente, quem vai apadrinhá-lo sujeitando-se ao ónus das suas consequências sem qualquer intervenção na sua execução?
A gravidade da situação, mais do que um compromisso multipartidário, requer a adesão inequívoca dos principais parceiros sociais. Para tanto precisa-se de alguém que coloque o guizo ao pescoço do gato.
Alguém que parece não querer aparecer.


O se tanto pode ser inconsequente como revolucionário, consoante se debruce sobre o passado ou perscrute o futuro. Afirmar que se não tivéssemos aderido ao euro ou o tivéssemos feito com uma paridade menos elevada a economia portuguesa estaria hoje melhor defendida e menos estagnada é afirmar o indemonstrável, porque a história não se rebobina nem é suceptível de outra montagem. O que lá vai, lá vai. É verdade que vários teóricos afirmaram, e continuam a afirmar, a inexequibilidade de uma moeda única num contexto político não integrado enquanto outros acreditaram, e acreditam, no contrário. Conclusões científicamente comprovadas, mesmo com o carácter transitório de todas as conclusões humanas, não existem, porque nunca se poderão dominar dados dinâmicos sugeridos por uma teia infindável de ses. Se a minha avó não morresse ainda hoje era viva é irrebatível porque invoca a única certeza humana.
Já o se voltado para o futuro é a única atitude que germina progresso. Sem o se só há rotina e adiamento. Se não faz sentido regressar ao passado para moldar um presente diferente é imprescindível equacionar o futuro quantificando os efeitos prováveis dos ses actuais em confronto. Se Portugal abandonasse o euro e voltássemos ao euro ganharíamos ou perderíamos com a troca?, não é uma questão absurda mesmo que não seja, por enquanto, levantada por qualquer das forças políticas representadas no Parlamento. Se a situação económica continuar a degradar-se a ponto de degenerar em conflitos sociais imparáveis, o euro surgirá mais tarde ou mais cedo como o bode expiatório a abater abarbatado pelo demagogo do dia.
Por aqui ainda não foram feitas as contas que possam desarmar os argumentos jogados como quem joga entre amigos, à cavaqueira. O que me espanta é a discussão entre académicos (em inglês, o que lhes pode dar distância mas não dará consistência) não respaldada em algarismos.
Há quatro anos, quase no início deste caderno de apontamentos, ouvi umas palestras promovidas pela Associação de Antigos Alunos da minha escola. Comentei, então, por exemplo, aqui e aqui, algumas questões levantadas pelas exigências e as restrições que a participação no euro colocava à economia portuguesa. Já nessa altura estranhei a falta de reflexão sobre o assunto por parte dos nossos académicos. À afirmação de que a nossa adesão tinha sido prematura e a taxa de câmbio muito desfavorável perguntei que vantagens poderíamos retirar agora (e então) de uma discussão sobre um facto irreversível mas fiquei sem resposta. À afirmação de que só saindo do euro poderíamos repor a competitividade da nossa economia, perguntei como, e a resposta foi dúbia: agora, é difícil, admitiu o professor. Mas se saíssemos que ganharíamos com isso? Não quantificou. Depois disso, mas não quero acreditar que por causa disso, modelou o discurso e amarrou-o ao passado.
Como referi, pelos vistos aqui também não há contas ainda que as parcelas consideradas se resumam ao défice energético. E os outros?
O alimentar, por exemplo. Hoje comprámos batatas espanholas, feijão verde marroquino, pão de trigo de onde? Os têxteis e o calçado made in Portugal que percentagem de matérias-primas incorporam? O peixe importado de Espanha servido a turistas espanhóis no Algarve que valor acrescentado incorporam? Se a nossa moeda fosse o escudo a nossa competitividade naqueles produtos e serviços que incorporam importações aumentaria quanto? Teríamos uma balança alimentar equilibrada por aumento da competitividade da produção nacional?
Parece que ninguém sabe.
E quando não há contas impor-se-ão os argumentos demagógicos.

Saturday, March 20, 2010


Até onde terá de ir a ruptura do tecido para que seja substituido e não mais remendado?
O Papa pede desculpa pelos abusos sexuais cometidos pelo clero
Numa carta pastoral sem precedentes,
(que pode ser lida
aqui) divulgada hoje, o Papa Bento XVI pediu hoje desculpa às vítimas de abusos sexuais por parte do clero irlandês, dizendo que sente “vergonha e remorso”


“Sei que Portugal é uma democracia plena, com inúmeros instrumentos de controlo do poder político. É neles que confio, até que me provem, e não que me vendam, que não posso confiar.” (aqui)
Aquilo para onde aponta não existe em nenhuma democracia plena: a de não poderem os jornais noticiarem o que conhecem (ou dizem conhecer) antes do julgamento dos tribunais.
Também eu quero acreditar no funcionamento das instituições. Neste caso, se o Público levantou falsos testemunhos ou exorbitou daquilo que lhe consente a lei, deve ser punido exemplarmente pelos tribunais.
Se acredita nos tribunais não pode deixar, logicamente, de aceitar (e esperar) que esta questão só pode ser derimida em sede própria. Dito isto não digo que concordo como a forma como vários media se comportam. Mas o que lamento é a ineficácia da justiça no julgamento oportuno destes e de outros casos. É aqui que está o imbróglio dos rombos que a nossa democracia tem sofrido.
Refere o Tribunal de Contas. Conhece alguma situação que tenha determinado a penalização dos prevaricadores adequada com os prejuízos que causaram ao Estado?
E volto à questão primordial:
Por que razão os lugares não são disputados em concurso?
Por que razão milhares de lugares são providos por nomeação política?
Por que razão a administração pública é dominada por assessores e consultores subalternizando os funcionários públicos a todos os níveis?
Por que razão os partidários se sobrepõem aos que só têm credenciais de competência?
Por que razão a inscrição num partido é essencial à nomeação para os cargos de direcção e administração do Estado?
É aí que está o vírus que mina o Estado. Muita gente nomeada por compadrio político não tem competência nem decência.
O PM (este ou qualquer outro) não deve, obviamente, ser demitido por isso. Mas não podemos dizer que não tem culpas no cartório, a maior das quais não pode ser julgada pelos tribunais: a de conviver e utilizar uma prática, que vinda de longe, corrói a democracia.

Friday, March 19, 2010


A expulsão de um membro da zona euro não é admissível pelo Tratado de Lisboa, mas se o fosse a sua concretização faria abalar os alicerces da União Europeia de forma irreparável.
Contudo, a não observância dos requisitos subscritos por todos os membros como condição para pertencer ao clube levará, mais tarde ou mais cedo, à sua saída. A expulsão não decorrerá, então, de uma ordem do grupo mas da insustentável posição para permanecer nele.
Ninguém lhe dirá: Vai-te! Mas dir-lhe-ão: Não seria melhor que te fosses embora?
Ainda que, transitoriamente, as opiniões divirjam* no fim acabarão por prevalecer os argumentos dos mais fortes.


” Um primeiro-ministro, durante o seu mandato, nomeia milhares de pessoas. É evidente que há uns que beneficiam grupos económicos, outros são apanhados a comer a secretária, há quem viole, quem roube no supermercado, etc.. Tudo isto é normal. A sociedade é isto mesmo.” (aqui)
No reino da responsabilidade, não. Na república das bananas, talvez.
O PM não pode ser responsabilizado pelas acções menos sérias das pessoas que nomeia? Publicou o Público* uma notícia sem razão plausível movido unicamente pela intenção de perseguir o PM? O PM não é responsável por aquilo que o jornal relata, logo a notícia é abusiva?
O PM não é obrigado a nomear tanta gente. Pode dar indicações aos Ministérios (às Direcções-Gerais, aos Serviços) para abrirem concursos e procederem a admissões segundo critérios de adequação dos perfis dos candidatos às exigências das funções. Mas não o faz em muitos casos. Porque as nomeações são feitas por razões de confiança política.
Assim sendo, quando a confiança de quem nomeia é comprovadamente atraiçoada pelo nomeado, quem nomeia não pode escusar-se a assumir a responsabilidade política de ter nomeado quem atraiçoou a confiança política que sustentou a nomeação.
Publicou o Público* uma injúria ou noticiou uma verdade? Não sei. Se se trata de injúria deveria ser severamente punido. Se não, prestou um serviço ao País ao denunciar uma situação condenável.

Thursday, March 18, 2010


Germany: Europe's engine (gravura copy/paste do Economist)
Em meados de Janeiro deste ano anotei aqui: "(...) soube-se ontem que o Governo grego solicitou o apoio do FMI, que já aceitou apreciar a petição. Como era previsível a UE não se substituirá ao FMI na resolução de situações de insolvência iminente que possam ocorrer com qualquer um dos seus membros. Compreende-se que assim seja. A intervenção da UE nestes casos comprometeria a prazo o equilíbrio institucional na União."
O artigo do Financial Times de hoje que agora mesmo transcrevi aqui esclarece as razões pelas quais a Alemanha se encontra condicionada por sentimentos contraditórios relativamente ao resgate da Grécia: por um lado, razões constitucionais impeditivas desse resgate; por outro, razões de soberania renitentes à intervenção do FMI no apoio a um membro do SME onde a posição da Alemanha é preponderante.
O meu apontamento de há dois meses aparentemente não colhe. Não é invocado o equilíbrio institucional da UE: Na minha perspectiva, o precedente grego, a acontecer, colocaria os outros membros sobreendividados, actuais e futuros, na expectativa de respaldo idêntico; por outro lado, assistir-se-ia a um sentimento de animosidade dos devedores relativamente às garantias a que se obrigariam perante os credores, e nomeadamente a Alemanha. Daí o inevitável recurso ao FMI.
No entanto, o processo continua em aberto. Pela minha parte continuo a apostar que o FMI irá interferir na resolução do problema grego, e não apenas como consultor, se não for constituído o FME. A tão curta distância da aprovação final do Tratado de Lisboa é espantoso que ninguém tenha previsto que um dia um ou mais membros do SME poderiam entrar em falência se não fossem socorridos.


Germany warms to IMF aid for Greece
The German government has not excluded an International Monetary Fund programme being drawn up to help Greece weather its debt crisis, in spite of strong political opposition to any such move, according to high-level sources in Berlin.
This amounts to a major shift in government thinking. Although no final decision has been taken, legal advisers to Angela Merkel, the chancellor, are adamant that any other form of bail-out would be impossible in terms of the European Union’s Maastricht treaty and German constitutional law.
A decision to turn to the IMF would amount to a defeat for the German finance ministry and the Bundesbank, where officials have been fiercely opposed to such intervention within the eurozone for any purpose other than technical advice.
The Greek government has already said it would turn to the fund as a last resort, but both the European Central Bank and the European Commission have resisted any such move.
Speaking in Brussels on Thursday morning, George Papandreou, the Greek prime minister, told European lawmakers there needed to be a European solution to his country’s debt problems on the table, and that he would prefer this to IMF intervention, even though he insisted Greece did not need any money.
“I would prefer the European solution…as a European,” he added.
“We are not going to default,” he told a special committee of MEPs in the European parliament. “We are saying that we don’t need this money.”
Mr Papandreou said Greece’s austerity package already met IMF standards. “We are taking IMF measures ... We have talked to the IMF. They would have asked us for nothing more,” he said.
A senior German official said on Thursday the government in Berlin still believed that the
debt-burdened government in Greece would be able to manage without external financial assistance.
Ms Merkel’s advisers have argued that any form of bail-out from within the eurozone would face a challenge at the German constitutional court in Karlsruhe.
The court gave a green light in 1998 for German participation in the single currency, but only on the basis of strict observance of stability rules, with debt and deficit limits for participating countries, and no bail-outs allowed.
The German decision is critical to any common position by the eurozone states on some form of bail-out, because Berlin would inevitably be the largest contributor.
Finance officials have been working for weeks on technical alternatives, such as a co-ordinated series of bilateral deals, that might not flout a bail-out ban that is written into the stability and growth pact, which underpins the euro. But the chancellor’s advisers have consistently warned that the legal problems might prove insuperable.
The first indications of a shift in the German position came on Wednesday, when two members of the Bundestag separately suggested that Greece should turn to the IMF.
“We have to think about who has the instruments to push for Greece to restore its capital market access [if that were ultimately needed],” Michael Meister, deputy leader of Ms Merkel’s Christian Democratic Union group in the parliament, told Bloomberg news agency. “Nobody apart from the IMF has these instruments.”
Mr Meister’s group has hitherto been strongly opposed to the idea of any eurozone member turning to the IMF, but its members have also been adamant that there could be no bail-out for Athens. In the end they have been forced to make a choice between two incompatible goals.
Wolfgang Schäuble, the finance minister, has also made his opposition to IMF involvement clear, and admitted this week that technical work was continuing on an emergency rescue package, if that should be needed.
Throughout the debate over ways of helping Greece, the German chancellor has insisted that her fundamental position is how to preserve the stability of the euro. She has also been adamant that it was up to the Greek government to put its own house in order, with a drastic austerity programme, before any help could be considered
Support for IMF intervention has been growing within the eurozone, with Italy, the Netherlands and Finland all arguing in favour.
Resistance has come from monetary officials, including at the ECB, on the grounds that IMF conditionality would not merely bind Greece, because monetary policy is decided for all 16 members of the zone.
There has also been strong political resistance, particularly in Germany and France, to the idea that the US and other IMF members would in effect be called on to rescue a member of the eurozone, thus exposing the inability of the Europeans to resolve a financial crisis in their own back yard.


Como se explica (...) que o regime norte-americano mais aberto e muito menos restritivo produza menos violações que o nosso regime draconiano? Pois porque simplesmente funciona. Todos sabemos quem está na origem das violações, o procurador responsável pelo processo. Evidentemente que muitas vezes não é o procurador quem directamente viola o segredo de justiça, mas sobre ele cai a responsabilidade processual de o proteger. Nos Estados Unidos, quando há uma violação grave e óbvia do segredo de justiça, o procurador responsável é exemplarmente castigado por desobediência ao tribunal. O procurador falhou o seu dever de proteger o segredo de justiça.
Querem resolver o problema em Portugal? É fácil, basta castigar quem tem a responsabilidade de garantir e proteger o segredo de justiça. O resto é demagogia de dez anos de pseudo-reformas para não resolver o problema. Outra coisa bem distinta é que a solução não agrade a quem de direito. Nesse caso, realmente as palavras do Procurador-Geral da República fazem todo o sentido.


Ambos defendemos a redução da despesa pública. Apenas lhe tenho perguntado, onde.
Não porque duvide que não haja lugar a reduções, mais ou menos drásticas, até porque mesmo nos mais pequenos gastos se avalia também a cultura de relaxe, desperdício e falta de rigor na gestão dos dinheiros dos contribuintes.
Pergunto, porque é recorrente a afirmação da necessidade da redução da despesa pública sem que geralmente se discuta onde. Para um cidadão não politicamente comprometido a dúvida é uma condição da sua cidadania.
Reconheço sem dificuldade que a crítica não implica eticamente a proposta de uma alternativa. Mas tenho alguma dificuldade em perceber que uma crítica se possa estabelecer sem um referencial de confronto, que, nesse caso, é uma alternativa. Se discordo de um caminho é porque de algum modo conheço ou acredito na existência de outro. Se "sei que não vou por aí", ou fico onde estou ou vou por outro lado.
Conhece aquele tipo que no meio de uma claque se levanta entusiasmado sempre que há golo, independentemente da baliza que o sofreu? Não é normal, reconheço, mas há gente assim.

Wednesday, March 17, 2010


Há dias transcrevi aqui um artigo do ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, publicado Financial Times, e comentei que esse texto um dia será histórico. As notícias de hoje de confirmação da atitude alemã perante os membros do euro em dificuldades (Merkel defende expulsão da zona euro de países que não cumpram as condições) reforçam-me a convicção do meu palpite: de que não estando a Alemanha disponível para ajudar a solucionar os problemas do sistema monetário europeu através de empréstimos ou garantias aos membros sobreendividados, não resta a estes alternativa senão resgatarem-se pelos seus próprios meios. A intransigência germânica num momento de crise sem paralelo na curta história do euro e da União Europeia faz algum sentido. Os problemas com que a Grécia (e Portugal, a Espanha, a Itália, etc.) se confrontam não são estruturalmente de natureza financeira. O endividamento excessivo é sempre consequência de outros vícios.
Que não se resolvem com a saída do euro. Pelo contrário, é a coabitação com o euro que pode forçar à adopção de comportamentos mais consentâneos com o crescimento da produtividade e da competitividade. As desvalorizações competitivas, a que a saída do euro conduziria irremediavelmente, podem insuflar transitoriamente algum ânimo às economias debilitadas mas não curam as causas dessas debilidades e, perversamente, adiam a tomada das medidas mais convenientes.
O euro, no entanto, pode representar, como já em diversos apontamentos já tenho referido neste caderno, um papel de bode expiatório permanentemente disponível para os governos que o queiram usar. Dito de outro modo, a quase unanimidade que ainda hoje se observa acerca das virtualidades da moeda única pode esboroar-se de um dia para o outro se a estagnação se prolonga e os conflitos sociais se agudizam e se tornam incontidos.
A presença no euro, e na União Europeia, julgo eu porque não vislumbro uma união monetária perdurável que não aponte para uma união política, exige, portanto, uma consciencialização muita alargada do que está em jogo. A consciencialização de que a pertença a um clube garante direitos mas impõe deveres, não está colectivamente absorvida. Se se continuar a equacionar a possibilidade de retirada, a retirada acontecerá mais tarde ou mais cedo.
Essa conscencialização implicaria um compromisso social subscrito por todos os grupos de interesses decisivos quando às medidas a adoptar. Que está muito longe de se cumprir num PEC com um horizonte limitado de três anos por mais manifestações de aprovação externas que receba. Seria, contudo, já um bom princípio que à volta dele se congregasse uma maioria qualificada de deputados*. O que está longe de parecer possível. Mais do que os interesses do País, continuam os partidos a entreter-se com discussões de mera chicana política.
*A recente entrevista ao PR não permite esperar da sua parte uma intervenção mais decisiva no sentido da constituição de um governo maioritário pluripartidário, que não partirá seguramente da iniciativa do actual quadro partidário. Creio que, deste modo, o PR perde o combóio da história e Portugal ficará parado numa das próximas estações.