Monday, October 31, 2005

UMA ALDEIA PORTUGUESA, QUE TRISTEZA

“Aldeias. Actividade económica? Nula. Ou quase. Cafés, com a Sport TV e gente falando muito alto. Alcoolismo. Restaurantes, como se imagina. Velhos. Cada vez mais velhos. Farmácias. Único emprego para os jovens que os faz fugir da escola e alimentar a estatística do abandono escolar: construção civil. Muitos jipes, carros, motas. Anúncios de discotecas, bares, cada vez mais. Os movimentos pendulares de carros pela noite, prenunciando o tráfico de droga. Depois ruínas, de quintas, lagares, fabriquetas, de vinhas, de zonas de cultivo de tomate, de campos de oliveiras, ruínas da agricultura portuguesa” – José Pacheco Pereira, Público, 28 Abril 2005.

“Mesmo eu sou de uma aldeia à beira mar e oiço-o duas léguas aoredol: meio ano a lavoirar e outro meio aoanzol (Afonso Duarte).”

Não sou da Ereira mas nasci por perto. Naquele tempo as aldeias “ao redol” pareciam jardins, regados com muito suor. Mas era uma economia de subsistência e vivia-se mal, alguns mesmo muito mal. Foi por viverem mal que muito saltaram para França, Luxemburgo, para toda a parte. Eram terras de pequenos agricultores e de pequenos pescadores e ninguém apareceu a ensinar-lhes a crescer. Talvez já existissem engenheiros e outros técnicos agrários mas nunca os vimos por lá. Os animais, se adoeciam, eram vistos e receitados por um alveitar. O veterinário não ia além do matadouro para assinar os papéis.Hoje, onde era jardim, há mato. A economia que era de subsistência é agora de assistência. Vegeta-se melhor.

Entretanto, em matéria de agricultura e pescas o Ministério da Agricultura e Pescas não parou de crescer. Segundo dados recentes, para cada 4 agricultores existe 1 funcionário no Ministério.

O Ministro, recentemente empossado, declarou para sossego das hostes e garantia dos votos que não haverá despedimentos. Nem precisava dizer, a Constituição não deixa.

Pode perguntar-se, no entanto:

Não se pode por essa gente a trabalhar?

A Constituição proíbe?

Que faz tanta gente no Ministério? Mistério.

Porque não aparece essa gente nas aldeias promovendo a melhor utilização dos recursos? Mistério. Porque nunca apareceu? Mistério.

O Ministro da Agricultura (e ás vezes das Pescas) e os seus colaboradores mais próximos não podem arredar pé de Bruxelas. E o resto do Ministério?Mistério.

A redução de postos de trabalho observada no sector primário nos últimos cinquenta anos (à excepção, como vimos, do Ministério Mistério) foi normal e acompanhou, com o nosso habitual atraso, o movimento de transferência para os sectores secundário e terciário, característico das economias em desenvolvimento. Entretanto, da economia de susbsistência, subsistiu, além do mais, fora do Alentejo e Ribatejo, uma propriedade fragmentada que, na maior parte dos casos, não pode ser competitiva. Os nossos solos não têm, geralmente, a potencialidade produtiva da Europa Verde. Mas aos poucos que temos, que lhes fazemos?Não sabemos.Alguns plantam eucaliptos, outros plantam casas, outros plantam barracões, outros não plantam nada porque não é preciso plantar para as silvas crescerem.E, evidentemente, os campos de silvas não pagam impostos, pelo que nenhum incentivo existe para lhe dar alguma eficiência económica. Aliás, enquanto a expectância não for tributada ou for menos tributada que a criação de riqueza a propensão para deixar crescer as silvas é, obviamente, enorme.

O que diz o Ministério a isto? Como de costume não diz nada.

Tenho um amigo, hoje na casa dos setenta, analfabeto, que comeu o pão que o diabo amassou, esgotou-se a trabalhar em franças e araganças, até que há meia dúzia de anos voltou a dar à costa. Continua a viver num barraco, tem um filho alcoólico, que provavelmente vê a TV Sport na tasca mais próxima, fala alto, e pelas contas da Nação também é considerado agricultor. Há dias encontrei-o a cuidar do batatal. Estava satisfeito com as amostras da sementeira e dentro de um mês vai poder comer batatas novas.

Que culpa, meus senhores, tem o meu amigo António que a agricultura em Portugal não passe da cepa torta? Em média (as médias são o que são, já se sabe) deve haver no Ministério um funcionário que ocupa metade do seu tempo preocupado com o António e o filho. Fá-lo, evidentemente, de forma muito discreta e fala baixo, tão baixo que o meu amigo António nunca o conseguiu ouvir.

- E se ele, António, viesse ajudar-te a apanhar as batatas?

- Nem pensar. Isto, parece que não, mas tem ciência. Quem não sabe apanhar batatas corta-as todas ao meio.

No comments: