Monday, February 12, 2018

NEM PEIXE NEM CARNE



Uma mistura de sabor desagradável para quem goste de teatro e de cinema

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Friday, February 09, 2018

GÉNIO OU CABOTINO?



"Cada homem é um artista"
JOSEPH BEUYS

Joseph Beuys é um homem
Logo, Joseph Beuys é um artista

Tuesday, February 06, 2018

GENTE BEM



Entrou, tropeçou numa caixa desarrumada à entrada da porta, e só não se estatelou porque conseguiu segurar-se ao balcão e dar de frente com o comerciante que rodara do arrumo de uma prateleira para olhar pasmado o desequilíbrio da cliente.
- Não ouviu o estrondo?, perguntou ela, assustada, enquanto se reequilibrava.
- Estrondo?, respondeu ele, com interrogação prolongada. Não ... não dei por nada. Desculpe ter deixado ali a caixa ... Não se magoou, não?, disse com displicência enquanto arrumava a caixa.
- Não, não ... segurei-me a tempo ...
Comprou meia dúzia de alperces, pagou, e perguntou, quando o comerciante lhe dava o troco:
- Ainda mora gente naquela moradia da esquina?
- Mora, mora ..., Moram lá o doutora e o senhor engenheiro com os filhos ... , respondeu o comerciante em tom evasivo.
Ainda assim, ela insistiu:
- Sabe, por acaso, se eles estão cá este fim-de-semana?
- Por acaso sei que não estão. A doutora esteve aqui ontem de manhã a comprar fruta para levar para a viagem. Foram para o norte, para um casamento. 
- Pois, agora mesmo, quando rodei o carro para entrar na rua, assustei-me com um estrondo vindo do lado daquela casa e ainda vi, pelo retrovisor, escapar-se pela direita, pelo passeio da avenida, um homem, seguido de  um rapaz com um cão pela trela. Estacionei logo que pude, e vi, vê-se daqui, que há uma janela arrombada, e muitos vidros no chão. 
O merceeiro tinha-se, entretanto, voltado de costas a continuar a arrumação da prateleira da fruta e manteve-se calado. Beatriz, que tinha entrado perplexa com a cena a que tinha assistido momentos antes, ficou intrigada com a indiferença do merceeiro, pegou no saco das compras, boa tarde!, e saiu.

Naquela moradia antiga, exteriormente degradada, situada numa esquina de uma das avenidas de saída da cidade, a entrada estava voltada para a rua da loja onde Beatriz comprava habitualmente frutas. Àquela hora de fim de tarde de um sábado quente, a rua habitualmente pouco movimentada, estava deserta, e na avenida passava uma ou outra viatura apressada. Beatriz vivia do outro lado do quarteirão.  Antes de entrar na loja, tinha atravessado para o outro lado da rua, descido até junto da moradia, olhou para os vidros partidos na janela e no chão, deu uma espreitadela para onde tinham desaparecido o homem, o garoto e o cão, e já não viu nenhum deles. De dentro da moradia não ouviu sair qualquer sinal de vida, por detrás das vidraças as portadas de madeira pareciam fechadas, a quietude do lugar tinha apenas estremecido por breves instantes com o estilhaçar das vidraças.
De volta a casa, acompanhou-a, mais do que a recordação do susto do estilhaçar dos vidros, a intriga que o tom da resposta do homem da loja lhe provocara e a tentativa de descortinar razões para a displicência dele perante a informação que ela lhe transmitira. 
Um casal ausenta-se para o norte, leva os filhos, não fica ninguém em casa, o lojista é informado disso pela cliente, moradora na casa, ouve-se um estrondo, um estilhaçar de vidros, a cinquenta metros de distância, se tanto, e o lojista não ouviu nada? Mas se não ouviu o estrondo, por que fez que não ouviu o que ela lhe disse? 
Com a janela partida, o mais provável é que a casa seja arrombada esta noite? Talvez não. Os vidros estão partidos mas as portadas pareciam fechadas. Por outro lado, quem quer assaltar uma casa não escolhe uma hora do dia, ainda que de um sábado à tarde, para partir as vidraças de uma janela da frente com uma pedra e um senhor estrondo. Quem quiser entrar sorrateiramente, entra pelas traseiras, não quebra as vidros com um pedregulho, corta-os com uma ponta de diamante, silenciosamente, sem deixar suspeitas no chão nem atrair as atenções de quem passa ou vive por perto. Hoje em dia, o instinto de solidariedade da vizinhança apagou-se com a deslocação das populações para os centros urbanos. Quem é que conhece os vizinhos que habitam no mesmo prédio de apartamentos? Sobe-se e desce-se no elevador, os olhos pregados no tecto ou no chão, muitas vezes nem bom dia nem boa tarde. Quem é que mexe uma palha ou pega no telefone se um alarme dispara num dos edifícios mais próximos  ou num automóvel estacionado por perto? Vive-se em regime de vizinhança clandestina, vão longe os tempos em que todos se conheciam, o mundo agora é uma aldeia de tocas. 

Quando chegou a casa, Beatriz já tinha decidido que telefonaria para a polícia. 
A dizer o quê, Beatriz? Que ouviste um estrondo quando entravas na rua vinda da avenida, que te apercebeste pelo retrovisor que um homem e um garoto com um cão pela trela se escapavam à tua visão dando a volta pela direita à moradia de esquina e que, confirmaste logo depois, uma das janelas da frente tinha sido partida e que havia vidros caídos no chão? Que esperas que a polícia faça? Que envie ao local uma patrulha para confirmar a tua informação ou te convoque para compareceres no posto a prestar declarações por escrito? Quem, para partir a janela, provocou um estrondo daqueles, precisamente na altura em que alguém, por acaso, tu, passava na rua de automóvel, e depois fugiu, vai voltar ao local do crime? Ninguém. Considerando as declarações que possas prestar o mais provável é que a vandalização tenha sido gratuita, sem racional subjacente, provocada por indivíduo sem tino, ou por represália ou vingança de alguém que não tens qualquer possibilidade de dar indicações de identificação minimamente precisas. E o alheamento do comerciante só reforça o argumento de que, nos tempos que correm, o melhor que tens a fazer é andar e ignorar. Se telefonas à polícia arriscas-te a ser convocada vezes sem conta, com perdas de tempo para ti  e sem proveito para alguém. Esquece.

Mas o diabo da consciência continuou a inquietar Beatriz.
Não lhe tinha dito uma amiga, há já algum tempo, que tinha uma colega de emprego que residia no bairro em que Beatriz habitava? E, se a memória não lhe falhava, que a tal colega morava numa vivenda antiga, de aspecto degradado, na esquina daquela rua com a avenida? E que estava, nessa altura, a construir casa em urbanização de luxo nos arredores da cidade? Que a casa velha era arrendada, renda antiga, a colega tinha vivido lá sempre com os pais, e, depois, com o marido e os filhos? E que, a casa era velha, mas o recheio valiosíssimo, mobiliário antigo, requintado, quilos de pratas à vista, tinha-lhe dito  amiga que um dia tinha sido convidada, ela e o marido, para um jantar lá em casa? Telefonou à amiga.

Que confirmou que o casal continuava a habitar a velha moradia, a renda era muito baixa, não contavam entregar a casa enquanto o proprietário não lhes oferecesse uma indemnização satisfatória. Entretanto, dispunham de um espaço habitável, apesar do mau aspecto exterior do imóvel, no centro da cidade, onde manteriam a maior parte do mobiliário e algum recheio, tudo o que não se coadunasse com o estilo contemporâneo da casa para onde estavam agora em mudanças. Mudanças que, aliás, cabiam na carrinha do homem da fruta, que se oferecera para fazer o transporte. Do mobiliário, não mais que duas ou três peças, a dar um toque de classicismo num ambiente modernista. O resto eram roupas, louças, e nem todas. As pratas? Ah! As pratas não iriam ficar na casa antiga. Nem pensar. Se alguém está a tramar um assalto à moradia antiga não vai fazer grande colheita. Os móveis são pesados e tudo o resto também não são coisas que os larápios procurem. Em todo o caso, acho que a polícia deveria ser avisada, se não conseguir falar com ela. 
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Deixou mensagem a informar o que se passara poucas horas antes e que iriam avisar a polícia.

Beatriz não telefonou, foi ao posto da polícia mais próximo dar conta do que tinha ouvido e visto.
O agente que a atendeu, um quarentão anafado pela imobilidade da função, dactilografou o depoimento com evidente enfado, não disse mas percebeu-se, casos daqueles entravam ali como formigas no formigueiro. No fim, a perguntou habitual, tem mais alguma coisa a acrescentar? Não, não tinha, disse Beatriz como se perguntasse, o que é que seria esperável que dissesse mais? O agente entendeu-lhe a dúvida no tom da resposta e perguntou-lhe, enquanto lhe dava o depoimento para assinar, se, vivendo ela nas proximidades, tinha sido aquela a primeira vez que tinha visto por ali um homem e um rapaz a passearem um cão. Não, Beatriz nunca tinha reparado, o tempo anda sempre a fugir-lhe, é casa, emprego, casa, emprego, sai e regressa sempre mais tarde para reparar no que se passa na rua. Pois muito bem, rematou o agente, assine onde está essa cruz. É tudo? A senhora disse que sim, que é tudo, não me compete a mim acrescentar seja o que for. Perguntei-lhe se, antes, nunca tinha visto aquele trio, porque, normalmente, quem passeia um cão passeia-o no bairro em que habita. Só por isso.

Na manhã de segunda-feira, Beatriz telefonou à amiga logo que chegou ao escritório. Diz-me uma coisa, tu que conheces bem a tua colega, e o marido, e os filhos, e o cão, como é que os descreverias se tivesses que o relatar a um agente da polícia? Pergunto isto porque, conforme sugeriste, fui ao posto, disse o que tinha visto, mas na descrição dos personagens não podia ir além de um esboço impreciso. No fim, já depois do depoimento, pergunta-me o agente se eu nunca tinha visto aquele trio por ali, uma vez que resido perto. Disse-lhe que não me recordo, ando sempre atrás do tempo, conheço pouca gente no bairro, vejo por ali muita gente, mas não reparo, não tenho tempo para reparar ou conversar seja com quem for. Penso que se passa o mesmo com as outras pessoas com quem me cruzo na rua ou que só vejo de relance quando saio ou entro de carro. E, foi então, que o polícia chamou a minha atenção para uma circunstância elementar que não me tinha ocorrido. O trio que eu vi de relance é, muito provavelmente, o engenheiro, marido da tua colega, o filho e o cão. Ninguém passeia o cão longe do local onde habita.
- Mas o homem do lugar de frutas e legumes não te disse que eles foram durante o fim-se-semana para o norte?
- Dizer, é uma coisa … Diz-me como é ele, o engenheiro, o filho, um deles, os dois, como é o cão?
- O engenheiro tem agora cinquenta anos, é alto e forte, mas não gordo, os filhos, o mais velho tem vinte, penso que estuda no estrangeiro, o mais novo terá uns sete, talvez, mas parece ter mais, há uma diferença de oito anos entre os dois, isso eu sei, o cão é um cão grande, um pastor alemão, se bem me recordo, castanho, mesclado de preto, mais escuro nas costas, mais claro para baixo.
- Bate certo com o esboço que consegui reter e transmitir ao polícia.  
- Não posso crer …
- Em quê?
- Naquilo que estás a pensar.
- Ah! Já chegaste onde eu cheguei. És mais rápida que eu. Levei o domingo a pensar na observação que o polícia me fez.
- Não posso crer … São gente bem. Ela é agora vogal do conselho de administração, era directora dos serviços jurídicos, foi promovida há pouco tempo, ele é director de serviços na Câmara, além de que ela foi herdeira única de uma fortuna, têm rendimentos elevados … por que razão iriam simular um assalto para receber uma indemnização da seguradora? se é nisso que estás a pensar. E por quanto? Pelo valor das pratas? São muitas mas a prata não vale assim tanto. 
- Que sabes tu da fome que a gente bem tem de fortuna?
- E depois, nunca mais poderiam expor as pratas. Tudo se sabe, vivemos numa aldeia …
- De tocas.
- De quê?
- Vivemos em buracos. Ninguém sabe nada nem quer saber da vizinhança. Para onde vão agora viver, os convidados pouco saberão deles e, sobretudo, ninguém ousará pensar mal de gente bem. Ou, se pensam, dão-lhes, implicitamente, as boas vindas ao clube.
- Acredito que acertaste. Sabes porquê?
- Diz.
- Cruzei-me com ela há uma hora, se tanto, no corredor. Não lhe saiu mais que um bom dia, tão seco que nunca lhe tinha ouvido outro tão seco. 
- E não lhe falaste da mensagem que deixaste no telefone?
- Nem tive tempo. Mas não é difícil adivinhar que diria que não costuma ouvir as mensagens deixadas no telefone de casa. 

Saturday, January 27, 2018

ASSÉDIO



- Quer saber uma coisa?
O Robalo chegava a casa por volta das sete, já a sogra tinha o jantar adiantado, a filha, mulher do Robalo, uma hora depois, o sogro, quando não estava fora, de serviço, depois da volta da tarde, cerca das cinco estava na sala que dava para a rua, e que era prolongamento de um quarto, a ler o jornal de ponta a ponta e, até que a mulher dissesse o jantar está pronto, entretinha-se com as palavras cruzadas.  Ele está convencido por a fazer as palavras-cruzadas é um tipo culto, troçava o Robalo, que mantinha uma relação tensa com o sogro com quem partilhava o apartamento. 

Numa tarde de Outubro, quando o hóspede num quarto interior subalugado um mês antes entrou em casa, o Robalo convidou-o para uma limonada no quintal das traseiras, um espaço atribuído ao primeiro andar do prédio, entrincheirado entre os prédios vizinhos. Temos de ir na limonada, acabaram-se as cervejas e do vinho que compram cá para casa não bebo nem que me paguem. 
Tinham instalado ali uma mesa redonda, com quatro bancos à volta, em ferro pintado de branco corroído pela ferrugem,  e, logo que se sentaram, atira o Robalo com aquela pergunta em voz baixa, 
- Quer saber uma coisa? Estive ontem com uma senhora que me disse que o conhece. 
- A mim? Estranhou o hóspede que já fosse conhecido numa cidade grande e aonde chegara há tão pouco tempo. 
- Os acasos andam por todo o lado, filosofou o Robalo, e eu encontrei uma sua conterrânea, sabe aonde? No Ritz Bar. Pois o meu amigo não entra em antros da má vida, já sei. Costumo ir ao Ritz com a rapaziada aqui do bairro, só para beber uns copos, não pagamos para ir para a cama, isso não. Um dos do grupo conhece o gerente, temos desconto nas bebidas. Sentámos-nos e, é fatal, senta-se logo a seguir uma mariposa de serviço para facturar pelo menos mais um copo, a dividir por todos, pouca coisa a cada um. Ela poisou ao meu lado e, passado pouco tempo, já me estava a fazer as perguntas do costume, querem casar ou arranjar alguém que lhe pague as contas. Ora eu sou casado, arrependido, mas sou casado, e, como lhe disse, a lei do grupo só consente que, para a cama, só por amor. Para desviar conversa, perguntei-lhe de onde tinha vindo, e ela disse. Como os acasos andam por aí por todo o lado, pelo que me disse, ela e o meu amigo são conterrâneos, se ela não mentiu. Disse-lhe que tínhamos lá em casa um hóspede que, por acaso, veio do mesmo sítio. Quem é, como é, às tantas disse-me que sim, que o conhecia, que o conhecia do tribunal... Do tribunal? O nosso jovem e inocente hóspede já andou metido em tribunais? Não acredito, disse-lhe eu. Há neste acaso peças que não se encaixam. Não é nada disso em que estás a pensar, disse ela. Quem andou metida em tribunais fui eu, o teu hóspede trabalhava no tribunal nessa altura. Não pode ser, disse eu, o rapaz, agora, ainda não tem vinte anos...Sim, na altura em que o vi por lá, teria dezasseis ... É possível. E eu tinha vinte. Agora estou com vinte e cinco. Pensei, é treta, mas não percebia por que havia ela de mentir quando o normal naquele ambiente é mentir para esconder. E com dezasseis anos já se trabalha no tribunal da vossa terra? E ela respondeu, parece que sim, mas o melhor é perguntar-lhe a ele. Isto faz algum sentido? perguntou o Robalo, baralhado com o puzzle.
- Faz. Pelo que me disse, lembro-me dessa mulher.
- Ah, conhece-a? Então ela não mentiu?
- Não, não mentiu. Já agora, diga-me: perguntou-lhe por que razão andou pelo tribunal há nove anos?
- Não perguntei. Devia ter perguntado?
- Supunha-o mais curioso... 
- Mas como é que o meu amigo, quando tinha dezasseis anos, já trabalhava num tribunal?
- E o Robalo que idade tinha quando começou a trabalhar?
- Com treze. Mas não trabalhava num tribunal... Era paquete, moço de recados, num despachante oficial, levava papeis de um lado para o outro. 
- E com dezasseis, o que fazia?
- Como, entretanto, fiz o primeiro ciclo e parte do segundo, aos dezasseis anos registava a entrada e saída de correspondência, saía para ir aos correios ou aos bancos levar documentos.
- Então já vê: Com dezasseis estávamos mais ou menos a fazer o mesmo.
- Hum! Alguém trabalha num tribunal com dezasseis anos? Desculpe, mas não acredito.
- Eu conto-lhe.

No Verão de 58, tinha completado o ensino secundário profissional, mas as hipóteses de emprego local não eram muitas. De modo que, para ir fazendo alguma coisa, aceitei um trabalho pontual no tribunal, sem remuneração porque não havia verba no orçamento. No primeiro dia de Setembro apresentei-me no local de trabalho, no tribunal. Tinham-me dito que a pessoa a quem me deveria dirigir normalmente não chegava antes das dez, mas seria conveniente chegar lá por volta das nove, não fosse dar-se o caso de o escrivão chegar mais cedo que o costume, escrivão de direito é o responsável pelos processos judiciais que correm por cada secção do tribunal. O comboio chegou às oito e meia, da estação até ao tribunal era um pulo de cinco minutos, o candidato a uma carreira judicial teve tempo para assistir, a duzentos metros dali, ao reabastecimento de gasóleo numa traineira que já tinha passado pela lota a deixar o pescado da noite. E às nove estava à porta do tribunal. A partir das nove e meia entraram vários funcionários, eu não fazia a mínima ideia que papel desempenhava cada um deles naquele teatro, nenhum me perguntou o que estava eu ali a fazer. Foi só, quase às dez horas, quando passou um sujeito, quarentão, com ar bem-disposto, era oficial de diligências, vim a saber depois, que me pergunta se procurava alguém. Supunha eu que fosse o escrivão e disse-lhe ao  que ia. Sorriu, disse-me que o seguisse, entrámos numa sala, resguardada do exterior por um balcão,  e, para lá do balcão, duas secretárias, uma encostada ao fundo, na outra, no lado direito sentava-se um rapaz, vinte e poucos anos, alto, que logo reconheci porque era um dos melhores jogadores de basquete de um dos clubes da cidade, esforçando-se para cozer um processo. Viva o povo trabalhador, desculpe se o ofendi! disse sorridente o meu guia ao rapaz, ao mesmo tempo que lhe estendia a mão para o cumprimentar. Diz-me aqui este jovem que o convocaram para recuperar os escandalosos atrasos dos processos judiciais, é verdade? Não sei de nada, respondeu o rapaz com sorriso cúmplice, tem que esperar que o chefe chegue.
O escrivão, já sabia, normalmente não aparecia na secção antes das dez, onze horas, consoante a animação da discussão no Café da Madame, enquanto fumava uma cigarrilha assinava as juntadas aos processos de documentos em páginas dactilografadas, e intercaladas pelo ajudante, o basquetebolista fora de horas, que os descosia para voltar a coser com sovela e fio de sapateiro, aparando com tesoura de alfaiate, para garantia de inviolabilidade, as folhas menos bem alinhadas durante o cozimento. Constava que o escrivão passava as tardes com as bailarinas que actuavam à noite no Casino…
- Nem só o Robalo anda na má vida …
- Pois, pelos vistos, não.
- Devia informar o meu sogro … Mas continue, estou a gostar de ouvir…Isso que me diz é tudo verdade ou o meu amigo anda a escrever um romance?
- Disse alguma coisa esotérica?
- Não, penso que não. Mas, e a miúda? Quando é que aparece a miúda?
- Agora … O escrivão entrou, passava já das onze …
- De cigarrilha pendurada na boca …
- Ah, não! O escrivão só puxava pela cigarreira depois de sentar-se na secretária. Deu os bons dias ao ajudante, só depois reparou em mim. Talvez este jovem possa dar uma ajuda nas querelas, que lhe parece?
Parece-me bem.
Óptimo. Tem aqui um trabalhinho para um mês. Dito isto foi sentar-se à secretária a fazer o costume: assinar juntadas.
- Juntadas,  meu amigo já falou várias vezes de juntadas, o que é isso?
- E a miúda pode esperar?
- Não, não, vamos ao que interessa.

O trabalhinho que o escrivão me atribuíra era a dactilografia em folhas soltas, para posterior encadernação, dos manuscritos das sentenças lavradas em processos-crime. Para os meus dezasseis anos, grande parte dos casos eram enredos que, na altura, só eram permitidos no cinema a maiores de dezoito anos. Resumindo, a incumbência era uma seca mas, aqui e ali, empolgante. Preponderavam os casos de estupro, homicídios voluntários e involuntários, injúrias pessoais graves, ofensas às autoridades, furtos à mão armada. Enfim, depois de três meses a dactilografar considerandos e sentenças, no fim do Verão, o tribunal ficou com o livro das querelas em dia e nem um obrigado como paga. De todo aquele tempo debruçado sobre uma velha Remington apenas me sobrava um sonho, ser advogado.
- É para isso que o meu amigo veio até cá. Diga lá, então senhor doutor o que se passou com a pequena. Se não é matéria confidencial …
- Não, não estou a cometer qualquer inconfidência. O caso foi, na altura, há seis anos, muito comentado no local onde os intervenientes viviam. Curiosamente, tendo sido muito falado, não foi controverso porque foram bem conhecidos os factos, circunstância que se reflectiu numa unanimidade no essencial dos depoimentos ouvidos em tribunal e com base nos quais ditou o colectivo de juízes ditou a sentença.
- Hum! Diga lá, então, o que é que se passou com a miúda. 
- É uma história comum, aliás todas as histórias têm ingredientes comuns, cozinham-se sempre com os mesmos, o amor e a fome, que condicionam os comportamentos da espécie humana há muitos milénios. O que torna as histórias diferentes é a forma como são contadas. 
- Percebo que o meu amigo já começou a treinar conversa de advogado... E a história, quando começa a história?
- Como lhe disse, fui dactilógrafo de sentenças durante um mês. À medida que ia terminando a dactilografia de um caso, que frequentemente incluíam dezenas de páginas manuscritas, devolvia o processo e entregavam-me outro. Um dia, mais ou menos a meio do mês, entra na secção a senhora que você encontrou ontem no Ritz, acompanhada de advogado, a solicitarem certidão dos termos da sentença de um julgamento. Eu estava embrenhado na empreitada, só dei pela presença dela quando o basquetebolista nas horas vagas me perguntou qual o número do processo que estava naquele momento nas minhas mãos, para concluir que ainda não tinha sido dactilografado. Deduzi que o processo da senhora, agora no Ritz, … a propósito, perguntou-lhe o nome dela?
- Disse-nos, quando se sentou, que se chamava Nini. Nome de guerra, está visto. Como é que ela se chama?
- Para si, é a Nini. Tem algum interesse em saber o verdadeiro nome?
- Não, nenhum. Continue, continue …
-Deduzi que poderia receber o processo dentro de cinco, seis dias, dependendo do volume de páginas dos processos ainda à frente na fila que combatia. E assim aconteceu. Eu conhecia grande parte dos acontecimentos em pormenor, como lhe disse eram do conhecimento público da vizinhança dos intervenientes.

Eram dois casais vizinhos, a casa de uns em frente da casa dos outros, em casas modestas encostadas em banda, térreas, telhados de duas águas, duas janelas em frente, no meio a porta de entrada, nas traseiras, que davam para os quintais, a mesmo alçado. Eles, operários, saem de manhã, voltam à tarde nos dias compridos, à noite quando são curtos. Elas ocupam-se com as tarefas domésticas, o acompanhamento dos filhos, o cultivo de alguns legumes na horta no quintal. De um lado, o casal tem duas filhas, a mais velha tinha, naquela altura, vinte e três anos, já estava casada, a mais nova, tinha completado o ensino secundário profissional, procurava emprego e, entretanto, ajudava a mãe.
No outro lado da rua, o casal tinha um filho, vinte e oito anos, na altura, sempre desempregado, sem habilitações porque desistira a meio do ensino secundário e uma profissão manual era por ele e pelos pais considerada desprestigiante, mas quem o visse, bem vestido, cigarrilha na boca, e muita prosápia ao volante de um carocha vermelho, e não o conhecesse, diria que o homem vivia bem abonado. Vivia à custa dos esforços e restrições dos progenitores, era um gavião bem emplumado a sobrevoar para se atirar em voos picados sobre as pombas confiantes.
A mãe da Nini tinha conseguido manter a filha mais velha fora do alcance da rapina do filho da vizinha à custa de muita conversa e, durante algum tempo, de acesa discussão.
Mas que mal lhe faz o rapaz?
A mim, por enquanto nenhum. Faz mal aos pais, muito mal mesmo, e isso dói-me tanto como se fosse comigo.
O problema é deles!
Mas tantas ouviu que desistiu, e, quando a mãe viu casada a mais velha, armou as barricadas à volta da mais nova e continuou a tapar os ouvidos aos lamentos da vizinha, que, dizia ela, nunca mais via o filho amparado, com um emprego, com uma mulher que o acalmasse, retirando-o daquela vida baldeada entre umas e outras, sem rumo nem futuro.
- Já estou a ver onde é que isso vai dar …
- Não é difícil. A todas as histórias, só diferem na forma e nos detalhes. E você já sabe onde que foi parar, por agora, a Nini.
- Mas continue, continue, senhor advogado de acusação…
- De acusação, porquê?
- Porque é muito evidente que, pelo andar da carruagem, percebe-se que o gavião fez o que lhe manda a natureza. 
- Mas não como está a pensar.
- Então conte o resto. Mas mais rápido que daqui a pouco está a minha sogra a chamar-nos para um cachucho frito com arroz de tomate. Gosta?
- Se for fresco …
- Cá em casa é tudo fresco, menos eu. Ou o contrário, segundo o meu sogro. Mas conte, conte …

- Um dia, ao fim da tarde, tinha a mãe saído de casa por uns instantes, por uma razão qualquer que agora não consigo precisar mas que não é crítica para apreciação dos acontecimentos, e dito à filha …
- À Nini.
- Disse à Nini que olhasse pela sopa que estava a cozer, não fosse a fervura ir além do que devia ou começasse a faltar a água na panela. Com certeza, mãe, vá descansada. Passado pouco tempo, deixou a fervura de se fazer ouvir, o gás tinha-se esgotado na botija. Onde é que está a botija sobressalente? Estava também esgotada. E, foi então, que Nini se recordou que a culpa era dela, a mãe tinha-lhe pedido que encomendasse outra botija, ela tinha-se esquecido e, agora, daí a pouco chegaria a mãe, pouco depois o pai para jantar, e a sopa só meia cozida. Que fazer? Pedir à vizinha, por empréstimo, a devolver com botija nova no dia seguinte. Não seria a primeira vez que isso acontecia, várias vezes a vizinha tinha pedido idêntico favor à mãe dela. E lá foi a Nini ao lado de lá da rua à procura da botija. Bate à porta, ninguém responde, mas a porta só está encostada. Vizinha?! Está em casa?
Ninguém responde. E a botija ali mesmo ao lado do fogão. Ainda pensou em carregar com ela, voltaria logo que pudesse a desculpar-se do abuso e a assumir o compromisso. Certamente que a vizinha não se iria zangar, ela que, segundo palavras frequentemente repetidas, considerava a Nini como se fosse sua filha. Estava a Nini naquela levo não levo quando, aparece, saído de um dos quartos voltados para as traseiras da casa, de tronco nu e a apertar a braguilha das calças, o gavião.
Estremeceu de susto a Nini, ia a pedir desculpa e sair quando entra a mãe dela, e vê o gavião naquela preocupação, que ela considerou subsequente à violação da filha. E gritou, desalmadamente: Socorro! A minha filha foi violada! Um escândalo público que atingia irremediavelmente para sempre a imagem da Nini. Que terá pensado o gavião nos momentos subsequentes ao pregão sem fundamento? Ele nunca tinha considerado envolver-se com a miúda, que conhecia desde sempre e, que a seus olhos, continuava uma garota simpática, meio atrevida, mas uma criança ainda. Além do mais, menor, com menos doze anos que ele, não apetecia ao gavião mergulhar em águas que lhe queimassem as asas. Demorou algum tempo mais a compor as calças, o suficiente para Nini pensar que, de nenhum modo, ela já sairia dali como entrou. A mãe tinha, involuntariamente, guiada pelas aparências e pela obstinação aparentemente frustrada de manter a filha bem longe do gavião, lançado sobre a honra da filha um anátema indissolúvel. Em estado de choque, desfazia-se a Nini em lágrimas convulsivas, e o gavião olhar para ela de cérebro parado, fez o que o instinto da sua condição humana o incitou a fazer. Acercou-se dela, acarinhou-a, e acabaram no quarto por se enlaçar os dois.  
Implorou a mãe ao filho, durante horas, perante o espanto mudo do pai, que se dirigisse à casa em frente, e pedisse perdão aos pais e a filha em casamento. O gavião recusou-se, negando culpas e sugerindo que tinha assumido outros compromissos. 

Em tribunal, ninguém negou a versão pública dos factos. O gavião foi condenado a casar com Nini. Em alternativa, aguardava-o uns anos de prisão e uma multa pesada à ofendida, por ser menor. Aceitou casar. No mesmo dia em que foi lida a sentença, desapareceu para parte incerta.
Até hoje.

Monday, January 22, 2018

OS RECUSADOS EM 1863



Obras do "Salon des Refusés" (1863) estão até ao próximo domingo no Kunsthaus de Zurique

No dia em que em Washington DC, - vd. aqui -  e em outras cidades norte-americanas, desfilavam muitos milhares de mulheres, e homens, repudiando a misoginia de que Trump é exemplar impune, 
reteve a minha atenção um quadro recusado de Degas (na realidade um sketch que veio mais tarde a traduzir-se numa obra mais conseguida, agora na National Gallery de Londres) baseado em escritos de Plutarco. O tema insólito mostra jovens espartanas a desafiarem rapazes para uma competição (con-test, na legenda e inglês).




ANTROPOLOGIA*

 

anthropologie.com

Antropologia

* Obs. -  Em consequência de rearrumações, o manequim mudou de local  

Thursday, January 18, 2018

O BRÊXIT E A COR DOS CARROS BRITÂNICOS


Há correlação entre o estado de humor dos britânicos e a cor dos seus automóveis?
Estará o Brêxit a contribuir para a recente tendência das cores escuras?
Parece que sim, se acreditarmos nesta análise.